Por que o Brasil não pode abrir mão da Embraer e da Avibras?


Por Weller Gonálves

O desenvolvimento tecnológico sempre foi um fator decisivo para a independência das nações. Países que dominam tecnologias estratégicas possuem maior capacidade de proteger seus interesses econômicos, fortalecer sua indústria, gerar empregos qualificados e reduzir dependências externas. No Brasil, empresas como Embraer e Avibras ocupam um papel central nesse debate por concentrarem conhecimento científico, engenharia avançada e capacidade produtiva construída ao longo de décadas.

Fundada em 1969, a Embraer colocou o Brasil em um grupo restrito de países capazes de desenvolver aeronaves de alta complexidade tecnológica. O avanço da empresa só foi possível após investimentos públicos em formação científica e infraestrutura, incluindo o Centro Tecnológico Aeroespacial (CTA) e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Não por acaso a companhia ocupa posição de destaque mundial no mercado aeronáutico e representa uma das principais exportadoras brasileiras de produtos de alto valor agregado.

A Avibras seguiu um caminho semelhante. Criada em 1961 por engenheiros formados no ITA, tornou-se referência internacional em sistemas aeroespaciais, foguetes de artilharia, equipamentos eletrônicos e tecnologias de defesa. Sua estrutura produtiva foi construída com forte participação de investimentos públicos, contratos governamentais e integração com centros nacionais de pesquisa. A empresa também desenvolveu tecnologias consideradas estratégicas para a capacidade industrial brasileira.

O debate sobre soberania nacional aparece quando empresas desse porte passam a enfrentar processos de privatização, desnacionalização ou interesse de grupos estrangeiros em sua aquisição. Algo que se aprofunda no Brasil desde os anos 90, através dos sucessivos governos, de FHC, do PT, Temer e Bolsonaro. A tentativa de compra da Embraer pela Boeing, anunciada em 2017, gerou forte debate sobre os riscos de transferência de conhecimento tecnológico acumulado ao longo de décadas. Isso poderia fazer o Brasil perder capacidade de decisão sobre uma área estratégica da economia e da indústria nacional.

Caso parecido envolve a Avibras. Desde a crise financeira aprofundada nos últimos anos, diferentes grupos internacionais demonstraram interesse na companhia. Para nós que defendemos a soberania industrial, a venda significaria não apenas mudança de propriedade empresarial, mas possível perda de domínio tecnológico em um segmento considerado estratégico.

Existe ainda outro elemento central nesse debate que é a relação entre recursos públicos e propriedade privada. Ao longo de décadas, tanto Embraer quanto Avibras receberam investimentos estatais diretos ou indiretos, incentivos fiscais, financiamento público e apoio institucional. No caso da Avibras, estudos apontam sucessivos ciclos de recuperação financeira sustentados com recursos públicos enquanto trabalhadores enfrentaram períodos de demissões, lay-offs e insegurança trabalhista.

Especialistas e entidades sindicais também apontam que a política de importação de equipamentos estratégicos pode aprofundar a dependência tecnológica brasileira. O enfraquecimento da indústria nacional reduz capacidade produtiva interna, compromete empregos altamente especializados e amplia a necessidade de aquisição de tecnologia estrangeira.

O debate sobre desenvolvimento tecnológico e soberania nacional, porém, vai além da produção de equipamentos militares e aeroespaciais. Não se trata apenas de defesa. Trata-se da capacidade de um país dominar ciência, engenharia, inovação e produção industrial avançada. Países que lideram setores estratégicos costumam combinar universidades fortes, centros públicos de pesquisa e planejamento estatal de longo prazo.

Nesse contexto, nós defendemos o controle dos trabalhadores brasileiros sobre empresas estratégicas e o fortalecimento de sua integração com universidades e institutos científicos nacionais. Setores do movimento sindical, como o Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, defendem que empresas como Embraer e Avibras sejam estatizadas e colocadas sob controle dos trabalhadores, como forma de preservar conhecimento acumulado e impedir a transferência de patrimônio tecnológico construído historicamente no país.

O Brasil enfrenta desafios históricos de desindustrialização e dependência econômica. Preservar empresas estratégicas, fortalecer a pesquisa científica nacional e desenvolver tecnologia própria aparece, nesse cenário, como um dos caminhos para ampliar a autonomia econômica do país. Portanto, a discussão sobre Embraer e Avibras não envolve apenas o destino de duas empresas, mas também o debate mais amplo sobre qual projeto de desenvolvimento o Brasil pretende construir para o futuro.

Em um mundo capitalista onde as potências imperialistas avançam sobre o restante dos países, buscando seus recursos e uma recolonização, é fundamental defender a nossa soberania nacional. Não apenas no discurso, mas na prática. Essa é nossa exigência ao governo Lula.

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